Australiana é uma das poucas pessoas no mundo capazes de lembrar de quase tudo o que viveram desde o nascimento

Semana passada, publicamos a primeira parte da entrevista com a australiana Rebecca Sharrock, 27 anos, diagnosticada com uma condição raríssima – a Síndrome da Memória Autobiográfica Altamente Superior (HSAM, na sigla inglês) ou, simplesmente, “síndrome da super memória”.

Especialistas acreditam que, em todo o mundo, menos de 80 pessoas sejam portadoras da doença, em que o paciente não esquece quase nada do que aconteceu em sua vida, tendo a capacidade de lembrar fatos muito antigos com precisão de data e horário.

Confira, agora, a segunda parte da entrevista com Rebecca:
HC: Como faz para se organizar mentalmente, sair do passado e focar no momento presente?

RS: Levou muitos anos para eu aprender a fazer isso. Alguns anos atrás, meu terapeuta, que me ajuda com minha ansiedade, me deu alguns exercícios de aterramento para praticar. Meu exercício favorito é chamado “folhas em um fluxo”: eu me sento, quando minha mente está caótica, percebo meus pensamentos e apenas me imagino pegando-os e colocando-os em folhas que flutuam por um rio. Desta forma, eu não me cobro de ter que me livrar dos pensamentos ou sentimentos, mas tenho a consciência de que eles existem e posso colocá-los em folhas hipotéticas. Tomar conhecimento dos pensamentos dessa forma tranquila ajuda a minha mente a estar consciente do momento presente.

HC: Por sempre ter a memória bem viva, tem mais dificuldade em perdoar seus próprios erros e também os dos outros?

RS: Eu geralmente perdoo as pessoas por erros passados. Embora, às vezes, quando revivo emoções das mágoas do passado, as pessoas têm a impressão de que eu guardo rancores. No entanto, para mim o perdão é mais difícil quando se trata dos meus próprios erros. Dói muito rever-me dizendo ou fazendo algo quando criança de que, hoje, eu me arrependa. Além disso, quando se trata de reviver memórias embaraçosas, eu fico triste e torço desesperadamente para que todos se esqueçam!

HC: Qual o primeiro momento de sua vida que tem lembrança?

RS: Não me lembro do meu nascimento, mas minha lembrança mais antiga é de mim em um berço olhando um ventilador ao meu lado, perguntando o que aquilo poderia ser. Eu definitivamente não estava ciente das datas do calendário na época, embora eu saiba que aconteceu antes de um evento em que uma foto foi tirada no qual eu tinha 12 dias de idade.

HC: O que você sentia e pensava com poucos meses de idade? O que te dava mais alegria?

RS: Com poucos meses de idade, eu ficava atenta, vendo as pessoas conversando e andando, mas a ideia da comunicação verbal foi o que, inicialmente, me fascinou mais. Percebia que as pessoas estavam falando para se comunicar e, instintivamente, ligavam meu próprio balbuciar a isso. Eu passava muito tempo praticando sons vocais, mas a parte mais difícil no começo era ter a capacidade cognitiva de vincular os sons e formar as palavras. Naqueles primeiros dias ou meses, eu sentia muito prazer com coisas que considero simples agora. Explorar os detalhes físicos dos objetos me dava uma sensação de alegria e me distraía constantemente. Eu também me sentia feliz e consolada quando percebia que minha mãe estava por perto. Meu sentimento era de que eu a conhecia mais, porque havia estado dentro dela por 9 meses. Acho que os bebês estão ligados às mães por razões de sobrevivência.

HC: Por quais motivos você chorava quando bebê?

RS: No início, chorava de confusão e medo. Quando o mundo inteiro é uma nova experiência para nós, quase tudo traz esses sentimentos. No entanto, não demorou muito para eu perceber que o choro chamava as pessoas, comida e acolhimento. Então, além de chorar por medo, às vezes, eu usava isso como um método possível de comunicação também.

HC: Qual a sua melhor memória de infância?

RS: Minha melhor lembrança de infância foi, definitivamente, quando eu descobri a série Harry Potter, aos nove anos. Quando minha professora sugeriu que eu deveria ler os livros, não me animei no início, porque eu preferia livros de não-ficção, como atlas. No entanto, uma vez que comecei a ler os primeiros capítulos de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, durante as férias, eu imediatamente me identifiquei com a série. Até hoje, leio os livros e assisto aos filmes constantemente. Além de achar a história muito interessante, também existe uma conexão emocional profunda com essa memória da minha professora favorita.

HC: Você consegue dizer se a criação e os cuidados que recebeu de seus pais e se os relacionamentos que desenvolveu com as outras pessoas desde sua primeira infância influenciam, hoje em dia, seu comportamento?

RS: Minha mãe me criou bem e ela me ensinou muitas habilidades para a vida. No início, ela me ensinou a respeitar os sentimentos e bens de outras pessoas. Quando criança, com cinco anos, uma vez, rabisquei um livro inteiro da minha. Minha mãe, então, disse à minha irmã: “escolha um dos livros de Rebecca para você”. Jessica escolheu o meu livro favorito, da Cinderela, e eu explodi em lágrimas, mas essa punição me ensinou sobre como respeitar os sentimentos de outras pessoas.
Mamãe também se esforçava para que nossos aniversários fossem especiais, o que nos ensinava a aproveitar essas datas todos os anos e, também, a reconhecer os aniversários de nossos amigos e membros da família.

HC: Como você lida quando é invadida pelas lembranças ruins? É possível equilibrar a tristeza que elas causam com as lembranças felizes?

RS: Certamente, embora tenha demorado um pouco para eu descobrir isso. No entanto, hoje, eu consigo me forçar a reviver uma lembrança feliz sempre que eu revivo, involuntariamente, as negativas. À medida que vou envelhecendo, o número de memórias positivas está aumentando. Ser adulta, para mim, tem sido mais fácil do que ser criança.

HC: Você se considera privilegiada ou acredita viver um fardo muitas vezes pesado demais?

RS: Eu sou naturalmente uma pessimista, então, inicialmente, via minha memória como uma maldição. Agora, estou aprendendo a olhar um pouco mais para o lado mais feliz e estou começando a perceber que existem tantos privilégios quanto dificuldades.

Este foi mais um texto da série sobre a HSAM. Em breve, no Portal Health Connections, você poderá conferir novos materiais sobre o assunto, com a paciente Rebeca Sharrock e especialistas.

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