Alzheimer: caminhos para a cura (1ª parte)

Beautiful granddaughter visiting her elderly kind grandfather.

Entrevista com o médico neurologista Daniel Paes

 

O mal de Alzheimer é a forma mais comum de demência, condição que afeta 35,6 milhões de pessoas no mundo, das quais 1,2 milhão no Brasil, de acordo com a Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz). A idade avançada é o principal fator de risco e não há ainda uma cura. O tratamento atual é baseado na atuação sobre os sintomas da doença, que incluem perda de memória, desorientação, ansiedade e comportamento agressivo. Dentre fatores que podem ser desencadeadores da doença estão a depressão, ansiedade e doenças cardiovasculares.

Há, porém, uma boa notícia: testes preliminares mostraram que uma nova droga, aducanumab, desenvolvida pela empresa de biotecnologia Biogen Idec em parceria com a Universidade de Zurique, na Suíça, leva à remoção de placas da proteína beta-amilóide que, acumuladas no cérebro, são responsáveis pelo mal de Alzheimer.

Para debater o assunto e explicar melhor o que é a doença, convidamos o Dr. Daniel Paes, médico neurologista, membro titular da Associação Brasileira de Neurologia.

 

Entrevista com Dr. Daniel Paes, 1ª parte:

 

Health Connections (HC) – Qual é a peculiaridade da doença de Alzheimer (DA) em relação às outras demências?

Dr. Daniel Paes (DP) – A doença de Alzheimer é a forma mais comum de síndrome demencial neurodegenerativa no mundo. Acomete 1% dos idosos após os 65 anos até os 80, 6% na década seguinte e, acima de 90, pode atingir mais de 60 % dos idosos. Como é parecido com outros tipos de demência, o diagnóstico de absoluta certeza requer a análise do tecido cerebral.

 

HC – Quais as características do cérebro de um portador de Alzheimer?

DP – Os portadores de DA, durante o processo fisiopatalógico neurogenerativo, apresentam alterações bem peculiares relacionadas a atrofias corticais que podem ser focais ou generalizadas em relação ao cérebro, o que podemos observar bem em exames de imagem mais modernos. O hipocampo e as regiões próximas apresentam tamanho reduzido e essa atrofia é diretamente relacionada à gravidade dos sintomas.

 

HC – A deposição das placas da proteína beta-amilóide, constatadas em pessoas que têm Alzheimer, influenciam na neurodegeneração do cérebro?

DP – Com certeza, é o principal influenciador e o processo desencadeante inicial para evolução do tecido cerebral que acomete a doença de Alzheimer. O depósito das proteínas beta-amilóides formam compostos neurofibrilares que levam à disfunção neuronal e, por consequência, à disfunção da função cortical e da atividade do cérebro relacionada àquela esfera da cognição afetada.

 

HC – Foi comprovado em estudo, na Suíça, que o anticorpo aducanamab reduz as placas beta-amilóides do cérebro. Essa descoberta pode ser considerada uma esperança para uma futura cura da DA? Qual é a sua opinião sobre isso?

DP – Sem dúvida, isso traz uma nova perspectiva, já que, até o momento, o tratamento do Alzheimer se restringe ao tratamento sintomático. Pela primeira vez, há uma esperança no processo de evolução da forma fisiopatológica da doença.

 

HC – Quais são os contras desse anticorpo, há possíveis efeitos colaterais?

DP – Como são estudos recentes, ainda se tem muito a testar e descobrir, mas alguns efeitos já foram revelados como: dor de cabeça, diarreia, tontura. Outros efeitos precisam ser observados, como infecções ou redução da imunidade sistêmica, mas pode-se dizer que é uma droga segura.

 

HC – É possível diagnosticar a doença através de exames de imagem, antes mesmo de se manifestarem os sintomas?

DP – Ainda não é possível o uso de métodos específicos para o diagnóstico precoce da doença de Alzheimer. Muito vem se avançando no que se refere à pesquisa, não só de exames de imagem mas também de biomarcadores que podem ser dosados no sangue ou no líquor para tentar desvendar um diagnóstico anterior à doença.

 

HC- Como prevenir a DA?

A doença de Alzheimer guarda uma forma muito estreita na sua prevenção, com as estratégias de prevenção para as doenças cardiovasculares de maneira geral. Então, a prática de exercícios físicos, o bom condicionamento físico, boa alimentação, assim como estratégias de estímulo cognitivo, leitura e uma boa dose de controle cognitivo sobre as emoções, evitando a depressão e a ansiedade, por exemplo, reduzem de maneira significativa a chance de desenvolvimento da doença.

 

HC – Qual é, hoje, o melhor tratamento possível para a doença?

DP – Hoje, o melhor tratamento possível se subdivide em dois pilares clássicos: o tratamento farmacológico e o tratamento não farmacológico. O primeiro é baseado em medicações que aumentam a oferta de acetilcolina e tenta reduzir o fenômeno de apoptose ou morte neuronal relacionada a estímulos prejudiciais sinápticos. Já o tratamento não farmacológico tem como estratégia o reconhecimento de déficits cognitivos e reabilitação dos mesmos, associada a boas práticas de prevenção secundária de lesões cerebrais.

 

HC – Quais são as melhores formas de reabilitação da doença?

DP – A reabilitação da doença é subdividida em esforços direcionados à melhora da qualidade de vida, como condicionamento físico, reabilitação motora e neurológica, trazendo ganhos funcionais e melhorando a independência do paciente para as atividades diárias, como a reabilitação cognitiva, que funciona como estratégia de proteção cerebral.

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